AMAR EM TEMPOS REVOLTOS por Nilson Lattari

AMAR EM TEMPOS REVOLTOS por Nilson Lattari

Roger Campos
23 de outubro de 2018

Poderia dizer em tempos de cólera, mas, não pretendo roubar o título aproximado ou tema de Gabriel García Marques. Até porque as razões da cólera, hoje, não estão subordinadas a um triângulo amoroso, mas a uma coletividade que clama por justiça, cada um a seu modo, o que transforma, o ato de arbitrar, em justiçamentos para uns e alegria para outros. Vivemos tempos de perguntas com a nova realidade.

Talvez um Romeu e Julieta modernos em que dois amantes são separados não por pais preocupados em não misturar linhagens, por preconceito e orgulho, mas, amantes separados por ideologias.

Será possível amar alguém que pensa diferente de nós, nesse mundo turbulento? O Brasil se descobre dividido, amigos de longa data se estranham, e como é possível, perguntamos, que aquele que julgamos conhecer, nesses momentos se revela um outro ser, com pensamentos diversos.

Beijar o outro, que pensa diferente, que se revela uma outra forma de pensar. Será possível amar alguém diferente no pensamento? Como dialogar com aquele que discordamos? Será possível dividir vida e espaço físico, filhos, com partidos, ideologias se entranhando no meio de dois?

Amigos se afastam e são encontrados de tempos em tempos, com conversas pouco duráveis, divergências, e no final das contas que ele ou ela vão para lá. Mas, e o dia a dia? Compartilhamentos de assuntos espinhosos nas redes sociais. A aproximação diária, na leitura dos posts, a distância física que não permite um falar mais alto, uma certa imposição do ideário. E qual a surpresa em ver amigos e companheiros de infância, universidade revelarem-se conservadores, apegados a religiões, ou vê-los empunhando bandeiras vermelhas em alegres selfies em passeatas?

E como amantes, viventes do dia a dia, cruzando olhares pelos cômodos das casas, dos lares, nas conversas com os filhos. Como amar em tempos tão difíceis? É possível deixar nas cômodas dos quartos, guardar ressentimentos e entrelaçar corpos e dizer palavras amorosas?

São pensamentos que se combinam por pertencerem às mesmas gerações, ou não importando a idade, pensamentos comuns, ou pelo menos próximos são suficientes para que o amor se deixe transparecer, desde que a cólera se ausente?

É possível esquecer os pensamentos diversos, se interessar pelo outro de outra forma, sob uma outra perspectiva? Como amar alguém que se confessa curtidor de determinada figura, abjeta para um e digna de ser reverenciada por outro?

Somos um país buscando representatividade real para as ideologias que permaneciam na obscuridade, e amar em tempos de cólera, de aversão pelo pensamento do outro, diferente é mais um exercício de extrema dificuldade. Quanto estaremos dispostos a esconder nossas ideologias para conquistar o outro? E conquistado, como manter nossos pensamentos reais escondidos para que o amor permaneça?

O amor resistirá ou se subordinará à cólera do outro, até que a raiva os separe? Poderíamos seguir o sinal dos tempos de cólera: amar sem seguir o outro.

Curta a página do Conexão Três Pontas no facebook
AMAR EM TEMPOS REVOLTOS por Nilson Lattari